Entrevista a Ramos-Horta.“Os nossos irmãos da Guiné-Bissau são vítimas da droga”

“Deus quis que eu sobrevivesse. Mas deixou-me com cicatrizes e algum desconforto, dor permanente, como um pequeno calvário, para o resto da minha vida [...] A vida é tão curta, frágil, porquê desgastar a vida em zangas e ódios?”

O ex-presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, assume em Fevereiro, “com serenidade”, o cargo de representante especial de Ban Ki-Moon na Guiné-Bissau. Uma missão que muitos consideram quase impossível dada a ausência de um Estado forte e funcional no país, que cedeu à influência da corrupção e ao controlo dos traficantes internacionais de droga. Nada que desmotive o Prémio Nobel da Paz, que quer ajudar o país a sair do “ciclo de instabilidade e de não paz” e que considera que a Guiné-Bissau “não é uma causa perdida”.

Acaba de ser escolhido pelo secretário- -geral da ONU para liderar a missão das Nações Unidas na Guiné-Bissau. Os Estados Unidos e muitas organizações internacionais dizem que aquele país já é praticamente um narco-Estado. A sua tarefa não está comprometida à partida?

A produção da droga não é na Guiné-Bissau. O consumo da droga não é na Guiné-Bissau. Portanto a comunidade internacional deve encontrar formas de cercear este mal na origem e no destino. Os nossos irmãos guineenses são afinal vítimas da produção e da comercialização ilícita da droga. Claro, o problema da Guiné-Bissau não está apenas na questão da droga. Ela resulta em parte da crise do Estado e das suas instituições democráticas. Mas a Guiné-Bissau não é a Somália, o Congo, a Síria. Felizmente. Estou convencido que, com boa vontade, um apoio maior da União Europeia e dos Estados Unidos, uma melhor parceria, um maior alinhamento de pensamento e políticas com a União Africana, a CEDEAU e a CPLP, a ONU poderá ter êxito. Não será uma missão fácil. Óbvio que não.

Conhece bem muitos dos actores políticos e militares da Guiné-Bissau. Como avalia o conflito permanente latente no país? É uma questão de rivalidades, ambições pessoais, questões étnicas? E o seu mandato como representante especial do secretário-geral da ONU vai permitir-lhe fazer o quê

no terreno?

Não vou, nem devo, adiantar muito em relação ao que poderei fazer no terreno. Primeiro tenho directivas a ouvir em Nova Iorque, do Departamento de Assuntos Políticos, que gere o dossiê da Guiné-Bissau. Com os meus colegas em Nova Iorque, ouvindo a CEDEAO, a União Africana, a CPLP, a União Europeia, teremos um pensamento comum. Mas acima de tudo serão os nossos irmãos guineenses a dizer e a decidir do seu futuro. A ONU não se substitui aos líderes nacionais.

Parte com apoios internacionais variados, até na própria Guiné-Bissau. Mas dado o passado histórico do país o que o levou a aceitar uma missão em que tantos outros já falharam? Aborrecia-o não exercer nenhum cargo oficial?

Eu já estava plenamente activo com uma nova organização não estatal regional, o Asian Peace and Reconciliation Council (Conselho Asiático para a Paz e a Reconciliação), lançada em Setembro passado e sedeada em Banguecoque, envolvendo líderes muito respeitados de toda a Ásia, vocacionada para o diálogo e a mediação de conflitos na Ásia. Além disso já tinha convites e projectos no Japão, na Alemanha e na Suíça. Tenho também o projecto de um livro/tese sobre a Ásia – “Os Desafios do Século XXI para a Ásia”. Pedi aos meus amigos e colegas do grupo dispensa por um ano e eles anuíram e encorajaram-me a aceitar a missão na Guiné-Bissau. Dada a história de Timor-Leste com a Guiné-Bissau, eu não poderia dizer não a um convite da ONU. Timor-Leste muito deve à ONU e, pela minha experiência, a organização pode ajudar os líderes e o povo da Guiné-Bissau a sair do ciclo de instabilidade, de não paz…

Como sabe, Portugal e a comunidade internacional não reconhecem o governo em exercício em Bissau. Acha que essa situação pode complicar a sua tarefa?

Não. Havemos de encontrar uma solução.

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One thought on “Entrevista a Ramos-Horta.“Os nossos irmãos da Guiné-Bissau são vítimas da droga”

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