Bissau – PIU, 22-2-13 – O Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas na Guiné Bissau, José Ramos-Horta, efetuou sexta-feira, 22 de fevereiro, uma visita de cortesia ao Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, general António Indjai, na Fortaleza de Amura.

Durante a visita, de mais de hora e meia, José raqmos-Horta se reuniu-se com o general António Indjai, com quem teve também a oportunidade de passar uma ronda às casernas e ao serviço de cozinha do Estado-Maior General, para constatar o estado cada vez mais degradante das infrastruturas nesse reduto militar.

Terminada a visita, José Ramos-Horta foi aborado pela imprensa que aguardavam à saida.

Jornalista – “Senhor Ramos-Horta, qual foi o objetivo deste seu encontro com o general António Indjai?”

José Ramos-Horta (JRH) – “Eu visitei o Quartel, as casernas que os senhor conhecem e viram também como eu. Como ser humano, fiquei com o coração partido ao ver as condições como vivem os militares, oficiais e soldados das forças armadas da Guiné Bissau.

Como é possível que se permita que militares que defendem este país, veteranos da luta, que libertaram este país – quarenta anos depois, vivem nestas condições. Eu, como ser humano, fico profundamente triste. Não posso prometer muito, mas tudo farei junto de países amigos para que, finalmente, alguém possa, como medida prioritária, reabilitar as casernas dos militares. Porque nós não temos muita autoridade moral para os criticar, se os governantes da Guiné Bissau, se a comunidade internacional não consegue dar uma vida digna aos militares deste país, para começar.

Segundo, vim aqui para ouvir por parte dos generais das forças armadas da Guiné Bissau sobre as condições em que eles vêem para a reorganização das forças armadas. E o senhor chefe de Estado.Maior, todos concordam com a prioridade absoluta na reabilitação dos quartéis, reforma profunda das forças armadas – é preciso chamar isso ‘modernização das forças armadas’ e só depois é que podemos falar em recrutamento de novos militares. Eu concordo totalmente no que eles exigem – reabilitação-reforma-recrutamento – três erris”.

Jornalista – “A modernização das forças armadas deve passar por quê?”

JRH – “Pela restauração da ordem constitucional, que passa por eleições. As eleições não podem ser demasiado a pressa, conhecemos a história de eleições, as eleições são extremamente importantes, e, por serem muito importantes, têm que ser organizadas com tempo e prudentemente. E podemos já começar com algum esforço de reabilitação dos quartéis, algum esforço na reforma e modernização das forças armadas, para que as coisas possam andar em paralelo.

Ainda estou em diálogo com os partidos políticos, para ouvir da parte deles um consenso em relação à realização das eleições. Os países vizinhos da CEDEAO, a União Africana, todos estão a espera que os dirigentes políticos da Guiné Bissau cheguem a um consenso sobre o roteiro, o calendário político para a realização das eleições. Mas, também, é preciso ter visão, ter uma estratégia para o pôs-eleições.

Devo dizer que gostei muito do encontro com o Estado-Maior, eles têm confiança nas Nações Unidas e as Nações Unidas vai trabalhar com eles, assim como com os governantes, políticos e a comunidade internacional para que a Guiné Bissau saia desta crise quase permanente dos últimos vinte anos”.

Jornalista – “Após ter ouvido os militares, qual é o recado que lhes deixou?”

JRH – “Não é competência dos militares, porque eles não fazem parte do setor da justiça. Mas a mensagem que deixei ao Conselho de ministros, deixei às chefias militares que este país é um povo tão pacífico. Neste país tão pacífico, eu não gostaria de ver um único bissau-guineense, um único cidadão deste país preso, com medo, sem culpa formada. Eu prefiro que todo e qualquer pessoa ligado à situação da crise política de abril e posterior, ou que seja julgado rápido, ou que sejam simplesmente postas em liberdade”.

Jornalista – “Falando das eleições gerais, qual é o tempo que o senhor está a prever?”

JRH – “A ONU não tem ainda uma preferência, uma opinião sobre o assunto porque cabe aos governantes políticos apresentarem um roteiro, nós então estudaremos com a CEDEAO, União Africana, CPLP, União Europeia e damos a nossa opinião sobre quando deveria ser a eleição. Nós não vamos dizer quando é que tem que ser, mas, alguns parceiros da Guiné Bissau preferem que sejam ainda este ano, isto é, lá para novembro, dezembro deste ano. A ONU ainda não tomou uma posição sobre este assunto, estamos ainda a estudar e a aguardar pelo roteiro que virá da Assembleia Nacional da Guiné Bissau, único órgão competente e legal que pode, auscultando todos, dar uma proposta definitiva”.