Dona Lurdes, a Padeira de Aljubarrota em Bissau: Como Enfrentei Tres Homens Armados

Lurdes Guerra

No dia da eleicao, 13 de Abril, depois de termos percorrido e observado muitas Assembleias de Voto na cidade de Bissau, decidi ir almocar no Restaurante “Padeira Africana”.

Primeiro, pensei num bom bife a Portuguesa mas os bifes que se comem por cá, de tão duras são, evocam sempre pensamentos tenebrosos como de terem matado a minha bisavo e serviram uma posta da pobre santa senhora. O prato do dia hoje Domingo 13 de Abril era “cozido a Portuguesa”.

Deixei-me tentar por essa oferta e todos enconmendamos o mesmo. A Ana Filipa Carvalho e o Carlinhos Jesus achavam que uma dose seria suficiente para os dois pois era uma dose generosa. So que logo a seguir a Ana Filipe pediu so podiam acrescentar mais umas tantas “carnezinhas”.

Foi ali que travei conversa com a Dona Lurdes Guerra, senhora de mais de 70 anos de idade, dos quais 40 anos duros vividona Africa. A Dona Lurdes já leva 22 anos de residência na Guiné-Bissau. Mais de 40 de vivências pelo continente africano.

Pedi ao Luis Nascimento para recolher a história desta Portuguesa de gema que me faz lembrar aquelas Portguesas como a Padeira de Aljubarrota que com uma pá de forno liquidou uns seis gauleses invasores enviados por Napoleao para anexar o pequeno “Jardim a beira-mar plantado”.

Duas décadas em Moçambique, até á Independência em 1975, e depois, no vizinho Malawi.

Esta empresária da restauração, oriunda de Peniche, Portugal, diz não renegar a sua origem lusitana, mas que “esta é a (sua) minha terra”.

Não tem planos para abandonar o País, a Guiné-Bissau, onde se sente “muito estimada por todos”.

Apesar de nestas duas décadas ter sido testemunha de muitos acontecimentos trágicos, golpes de estado, crises político-militares, confrontos armados, instabilidade generalizada.

E estes dois anos, desde o golpe de 12 de Abril de 2012, têm sido os piores do ponto de vista económico e social: “tenho visto pessoas desesperadas, com falta de alimentos, dinheiro…completamente, falta de tudo, de tudo! Há uma desorientação por parte das pessoas, dizem, preciso de dinheiro, não tenho arroz, não tenho medicamentos…este género que pedidos assim”.

Sente-se acarinhada pela população guineense, os empregados dos seus estabelecimentos, no centro de Bissau, “são como irmãos, somos uma autêntica família”.

Apesar do incidente ocorrido há uns meses, que lhe podia ter custado a vida e a do marido.

Foi o único problema que teve em África, apesar das convulsões e insegurança que marcaram os países onde tem vivido.

No caso de Bissau, um incidente de contornos nunca devidamente explicados e investigados.

Uma história de coragem, desta mulher de 69 anos, que conseguiu graças a um impulso, inverter a situação e sair ilesa de um assalto à mão armada.

A Avô Lurdes tinha saído do estabelecimento, acompanhada do seu segurança pessoal, (enfim, aqui, como em Timor-Leste os tais segurancas Mauberes…) pouco antes da meia-noite e dirige-se para a residência, por sinal, na mesma rua: “ele, o segurança, vai abrir o portão da casa, eu fecho uma parte, ele vai para fechar a outra metade do portão e puxo o carro mais à frente, para encerrar o portão. Entretanto, ele corre com as mãos no ar e entra para a garagem. E eu pensei: “porque é que ele vai com as mãos no ar, a gritar? Pensei até que ele tivesse entalado a mão no portão e fosse meter o dedo debaixo da água.

Fiquei no carro, para desligar o motor, batem-me no vidro, olho para o lado e vejo dois homens com a pistola, de calibre .9, a mandarem-me sair, a baterem com a pistola no vidro. Achei que tinha que abrir a porta, de outra maneira, partiam-me o vidro. Eu levava as chaves de casa na mão, assim que eu abro a porta, puxam-me pelo braço, pensando que eu tinha lá o cofre, com dinheiro, mas não tinha”.

Nos minutos seguintes, conta Lurdes Guerra, aumentam as exigências dos assaltantes, insistindo para que abra a porta, entre em casa: “para que eu desse a chave, começam a bater-me, a dar murros, a baterem-me nas pernas. Eu tinha o meu computador e a mala dentro do carro, e não se interessaram por isso, deram antes a volta e foram ao porta-luvas. Como viram que estava fechado, deram-me uma coronhada nas costas”.

Seguem-se mais agressões, nos membros inferiores, e já com menos forças, senta-se no banco do condutor: “agarrei-me à parte de cima com a outra mão, mas como tinha partido a mão direita e tinha menos forças, eu comecei aos pontapés. Um deles, com um gorro na cabeça, eu arranco-lhe o gorro e quando isso acontece, ele fica muito sério a olhar para mim e eu disse que conhecia aquela cara; ele deve ter ficado com a cara arranhada”. O outro meliante, aumentou o tom das ameaças e disse: “atira! Mata! Mata! Os dois tinham pistolas, e aparece um outro, um terceiro, mais baixo, que me arranca o fio do pescoço, e sai, ficando eu a lutar com o outro”.

Lurdes diz que não desistiu de se defender, começa a pontapear um dos assaltantes, que na confusão deixa cair o telemóvel: “quando o telemóvel cai eu sem ele dar por isso, com o pé afasto o telemóvel para debaixo do carro. Entretanto, ele continua a lutar, a agarrar-me nas mãos e eu não deixava. Eu dava-lhe pontapés, quis atingi-lo num certo sítio, para ver se o deitava abaixo, mas ele recuava, recuava…”

A dada altura, Lurdes chama pelo marido, grita-lhe para que traga a arma, mas o marido não ouviu nada, por causa do barulho do ar-condicionado e estava um pouco afastado do local do acontecimento. Ao mesmo tempo, uma jovem que vivia num anexo da casa, é alertada pelos latidos dos cães e vem ver o que se passa no quintal: “ela começa a dizer, bandido, bandido, eu vou para me levantar do carro, ele dispara a arma, o tiro passa-me por cima, e faz um buraco, que está lá na parede”.

O marido de Lurdes aparece, entretanto, aponta-lhes uma arma e os assaltantes põem-se em fuga. Os vizinhos conseguem ver um dos suspeitos a atravessar a rua.

Lurdes Guerra, ainda incrédula com toda a situação, tem várias interrogações sobre os contornos deste caso, a sua origem e o desenrolar da tentativa de assalto e, de viva voz, duvida da conduta do seu segurança pessoal: “quando eles entraram, ele fugiu, nem sequer alertou o meu marido, e escondeu-se atras de um depósito, não bateu na porta, nem gritou”.

A empresária diz também, que há outros indícios suspeitos sobre a atitude do seu segurança: “quando a moça sai do anexo, ele, o segurança nem veio á frente, mas atrás dela”.

Além do mais, há o pormenor da arma de Lurdes: “será combinação com eles? Não sei ao certo…agora, eles foram directamente ter com o sítio onde eu costumo ter a minha pistola e não tinha…eu tenho licença de porte de arma, e como saio daqui àquelas horas, costumo andar com ela. E como ele (o assaltante) foi ter logo ao local onde eu costumo ter a pistola, eu penso que se calhar sabia alguma coisa…”

Apesar de ter salvado a vida e assegurado os seus bens, Lurdes Guerra não tem dúvidas e não aconselha ninguém a reagir como ela, aos assaltantes armados : “mas eu lutei bastante!…”

Ora, impõe-se, porventura a pergunta: o que levou Lurdes Guerra, em clara desvantagem neste assalto, face a três homens armados e agressivos a enfrentá-los, com todas as suas forças? :” foi um impulso, não foi nada pensado…quando ele me deu a coronhada nas costas, foi uma dor tão grande, que fiquei com raiva, mesmo! E foi aí que eu comecei aos pontapés a ele, eu dei-lhe muitos pontapés, muitos mesmo!”

Lurdes questiona ainda o facto de os assaltantes não terem furtado mais nada, nem o computador ou a mala que tinha no carro, apenas o fio que tinha ao pescoço.

Diz que o pânico veio a seguir á fuga dos assaltantes: “chamei a Policia Judiciária, viu a cápsula da bala e disse, isto é calibre de arma da tropa: eu quase não podia andar e disse á PJ que tinha provas, que tinha o telemóvel de um deles” e o cartão do aparelho só podia ser investigado numa operada de rede móvel, porque conteria números de telefone, eventualmente úteis para a investigação.

No dia seguinte, após consultar o advogado, Lurdes Guerra acabou por retirar a queixas, receia represálias, porque diz que “ia ser o alvo deles, inclusivamente, eles já tinham cometido assassinatos, e como estrangeira, eu era o alvo deles”.

Dias depois, é informada pelas autoridades, de que os assaltantes acabaram por ser detidos, com base nas acusações contidas nos cadastros: “eu depois fechei o assunto, não quis saber de mais nada, mesmo não acreditando que ainda estejam presos, acho que não estão”.

Convencida de que os três homens pretendiam entrar na residência, Lurdes diz que claramente, ela e o marido poderiam não escapar com vida. E questiona: “será que foram mandados por alguém?…e se sabiam que eu tinha vindo do estabelecimento e levava dinheiro na mala, porque é que não a levaram? Não levaram absolutamente nada, foram logo direitos ao porta-luvas do carro”.

Apesar de suspeitar de que não se tratou de um caso premeditado, Lurdes Guerra indica que por aqueles dias, próximos do incidente que viveu, houve vários assaltos e queixa-se da falta de policiamento: “naquela semana, só vi uma vez a ronda da polícia, e isto é uma rua com estabelecimentos, com pessoas que circulam até tarde, estrangeiros, guineenses,etc”.

-FIM-

LN, 15.04.14

One thought on “Dona Lurdes, a Padeira de Aljubarrota em Bissau: Como Enfrentei Tres Homens Armados

  1. Jorge lemos Peixoto

    Um enorme abraço de solidariedade à D. Lurdes. Sempre que vou a Bissau não deixo de lá ir. Desta última vez não fugi à regra e até fui duas vezes, uma a convite de amigos guineenses e lá nos batemos com o seu magnífico cozido, tão bom como dos melhores que se comem em Portugal e da segunda o convite partiu de mim e o repasto foi um extraordinário bacalhau à lagareiro. Só um pequeno reparo que não retira nenhum lustro a esta narrativa. A padeira de Aljubarrota que ainda hoje enche de orgulho os portugueses não se bateu contra gauleses, nas invasões napoleónicas nos inícios do século XIX, mas sim contra os castelhanos durante tentativa de usurpação do reino de Portugal no século XIV.

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