Mercado popular de Caracol, cercanias de Bandim, Bissau. Um sol inclemente não demove alguns milhares de guineenses que se dirigem para o local da festa de despedida do Representante Especial do Secretário-geral da ONU. Quis Ramos-Horta que este momento especial fosse com o Povo.

O mesmo povo que conheceu ao longo de dezoito meses, desde que assumiu a tarefa difícil de auscultar os anseios das populações, desde a mais remota tabanca do sul, com a Guiné-Conacri, à mais remota aldeia fronteiriça do Senegal e às Ilhas Bijagós.

Um pequeno país que vive há longos anos num clima de incerteza, de instabilidade, insegurança e crise económica profunda.

As eleições gerais de Abril e Maio foram o ponto de viragem. Em estreita ligação com as autoridades da Transição, Ramos-Horta, ajudou a criar as condições para que o País pudesse regressar à Ordem Constitucional.

Não só com os políticos, com os militares, mas sobretudo é com o povo que Ramos-Horta consegue ouvir o pulsar de quem só quer estabilidade e uma vida melhor.

A escolha deste local, que acarretou um enorme desafio às forças de segurança, foi uma decisão simples. Mulheres, homens, crianças, jovens, começaram a juntar-se a uma pequena tenda onde se sentaram Ramos-Horta, o Primeiro-ministro cessante Rui Duarte Barros, e o General Indjai.

Terá sido uma das raras e mais significativas aparições em público do homem que liderou os acontecimentos militares de 12 de Abril de 2012.

É Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, e o simbolismo da sua presença, bem como tomadas de posição a seguir às eleições, demonstram uma vontade de aceitação do novo “status quo” e de promoção do respeito da vontade popular.

A ele juntou-se o novo Primeiro-ministro, Domingos Simões Pereira, que no xadrez político da Guiné-Bissau, é líder do PAIGC. Um abraço prolongado e a confraternização que se seguiram, mostram a vontade destes e de outros líderes, em virarem a página de desconfianças, de um diálogo difícil ou quase inexistente entre vários sectores da política e do Exercito.

Todos agradecem a Ramos-Horta, pela sua promoção constante de um diálogo democrático entre todas as partes.

O “Obrigado Ramos Horta”, cantado ao vivo pelos músicos Sana e Braimex ( que já existe em cd e passa nas rádios da Guiné-Bissau) bem como outras referências de outros artistas em palco, à vida guineense e à figura do Representante do Secretário-geral da ONU, ilustram o agradecimento e reconhecimento. Simbólico até quando Ramos-Horta foi “vestido” e revestido com vários panos de pente tradicionais. Várias foram as oferendas de bindeiras, mulheres que fazem a venda nos mercados.

Cânticos, danças num cortejo numa das ruas do Caracol, que se prolongou por duas horas. Alegria e muitos apelos á paz. Uma oficial timorense da UNPOL (Polícia das Nações Unidas), não resistiu e juntou-se à dança dos populares.

Apelos escutados por todos, desde os convidados especiais aos humildes que acorreram em força ao local deste evento.

Os líderes ali presentes subiram ao palco para agradecer. Rui Duarte Barros, o Primeiro-ministro da Transição lembrou “ que Ramos-Horta muito fez por este País, que é um Pais viável”.

Ramos-Horta, sempre contido nas emoções, falou aos populares em modos simples mas com a carga do compromisso:” são um povo muito bom e muito pacífico e eu posso anunciar que o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, irá visitar a Guiné-Bissau. Ele já conhece as bideiras e dá os parabéns ao povo”. Utilizou uma imagem para se dirigir ao novo Chefe do Governo, Domingos Simões Pereira: “daqui a cinco anos, dá um bocado de arroz a Timor-Leste. Constrói um metropolitano, e se calhar, teremos um aeroporto em Bissau melhor que o de Singapura e o de Lisboa”.

A saída do local desta festa, marcadamente popular, foi pontuda por muitos cumprimentos a Ramos-Horta, mas também aos convidados, incluindo o General António Indjai, na sua farda verde azeitona e quatro estrelas no ombro, mas sempre com um sorriso e demonstrações de afecto, neste contacto com aqueles que lhe confiam a segurança e a defesa nacional.