No dia 19 de Junho, no mercado Caracol, em Bissau, as “bideras” e seus filhos, muitas centenas, organizaram para mim uma grande festa de despedida.

Ofereci duas vacas e comprei todos os produtos necessários para confeccionarem almoço para umas centenas de gente simples do povo. Quis despedir-me das gentes simples da Guiné-Bissau.

O Alberto Carlos, Chefe da Agência de Cooperação de Timor-Leste, pagou pelo equipamento sonoro e um palco rudimentar.

Os dois Primeiros-Ministros, o cessante, Rui Barros Duarte, e o eleito, Domingos Simões Pereira, também la estiveram e ofereceram caixas de bebidas. O Gen. Antônio Injai, Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, também compareceu. Ele, Injay, visto sempre como o “lobo mau”, de porte grande, ar de verdadeiro chefe de tabanca, lá estava, bem recebido pelo povo.

Eu convidei os três “Homi Garandi” a juntarem-se a mim e ao seu povo humilde. Mas antes eu tinha telefonado ao principal promotor da festa, o Adile, a saber se o povo receberia bem o general. Ele assegurou-me que sim.

Grupos musicais, “rappers” e rock assim como grupos tradicionais ofereceram entretenimento. Um grupo de jovens “rappers” compuseram uma música para mim e emitiram um certificado garantindo que o José Ramos-Horta cumpriu a sua missão. Disseram que eu poderia entregar este certificado ao Secretário-Geral da ONU “para ele saber que os rappers da Guiné-Bissau acham que eu cumpri a missão de que fui incumbido pelo Conselho de Segurança”. Levo comigo o certificado para exibir ao meu chefe Ban Ki-moon caso ele necessite de uma opinião autorizada sobre o meu mandato.

Conheci as “bideras” no início da minha chegada a Bissau em Fevereiro de 2013. E agora parto despedindo-me delas, mulheres simples da Guiné-Bissau, elas que são a verdadeira força económica desta Terra.

Desbravam as matas, plantam e colhem; apanham a lenha para cozinhar; buscam água para a casa. E cuidam dos filhos.

Os homens, muitos (há sempre exceções) estão sentados à sombra das árvores da tabanca, serenos, discutem as pequenas e grandes questões de hoje ou de ontem; jogam cartas, bebem vinho de caju.

E esperam pelas mulheres que estão no campo para que logo que cheguem preparem o arroz. O homem não sabe botar água numa panela, fazer lume e cozinhar o arroz.

Foram 18 meses de missão político-diplomático na Guiné-Bissau e também de muitas viagens na região, Europa, EUA.

O Estado Timorense, com Taur Matan Ruak, Xanana e Alkatiri, assumiu liderança moral, num ato de coragem e generosidade, que surpreendeu e emocionou todos na Guiné-Bissau e em toda a região da Africa Ocidental.

Nicolau Lobato, nosso Herói e Mártir, não esperava outra coisa dos seus sucessores.

Os povos e governantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que tanto contribuíram pela independência de Timor-Leste deverão sentir-se felizes por verem Timor-Leste saber assumir as suas responsabilidades morais e históricas em apoiar um Pais Irmão da CPLP em crise.

Acredito que os militares vão respeitar a nova Ordem Constitucional. Não haverá mais golpes à mão armada. O Governo do Primeiro-Ministro Eng.º Domingos Simões Pereira vai governar cinco anos sem sobressaltos.

Constitucionalistas Portugueses impingiram o semi-presidencialismo para a Guiné-Bissau; no resto da África, em toda a América-Latina e quase toda a Ásia impera o presidencialismo. No modelo semi-presidencialista da Guiné-Bissau que criou a bi-cefalia do poder político se pode encontrar explicação para uma boa parte da instabilidade política, agravada pela falta de humildade e sentido de Estado dos que ocuparam a presidência e a primatura.

Espero que o meu Irmão José Mario Vaz (Jomav) saberá fazer da sua presidência uma presidência de reconciliação e estabilidade, criando condições políticas favoráveis para que o Governo possa governar com tranquilidade; que ambos, Jomav e Domingos Simões Pereira, saibam ouvir e dialogar com a classe militar, tranquilizando e dignificando os militares; e gradualmente, com prudência, mas também com firmeza, iniciar o processo de modernização das Forças Armadas.

Toda a chefia militar disse repetidamente, “queremos o modelo Timorense”. Mas nós Timorenses temos que ter consciência das nossa muitas limitações no plano de recursos humanos e financeiros.

A CPLP que esteve ausente durante o período de transição, refugiada no castelo dos princípios, deve estar na linha da frente com os parceiros regionais e sub-regionais na mobilização de recursos financeiros para ajudar a resgatar a economia Guineense.

Acredito que a Guiné-Bissau entrou numa nova era mais promissora. E a comunidade internacional não pode trair esse povo sofredor, paciente e humilde que deposita em nós todas as suas esperanças.

Parto com uma parte do coração a residir, enfeitiçado, nas Ilhas Bijagoz e nas Tabancas, com os Homis e Mindjeris de Guine-Bissau.

José Ramos-Horta

Bissau, 20 de Junho de 2014.