Ultimamente tem havido escritos no Facebook e outros “Social Media” do estilo “bota abaixo” do meu País. Certo, Timor-Leste podia estar muito melhor nas áreas de saúde e de educação. Podia estar melhor em tudo. Certo também que, comparado com 1999-2002, com o período trágico de 1975-1999, e com o período colonial, isto é, o que havia em 1974, hoje o nosso Povo está muito, muito melhor servido nestas duas áreas.

Muitas mensagens desabrocharam no Facebook e algum Media tradicional sobre a saúde em Timor-Leste e o “abandono” do antigo hospital em Lahane da época Portuguesa.

Este complexo hospitalar incluía o edificio principal (foto) onde funcionava a cirurgia geral, a maternidade (mais em baixo) e uma unidade militar, mais acima.

O mesmo começou a entrar em desuso na última fase da ocupação Indonésia pois entretanto a Indonésia fez construir o Hospital de Tokobaro, depois batizado de Hospital Nacional Guido Valadares pelo primeiro governo timorense, em homenagem a Guido Valadares, responsável de saúde da FRETILIN (1974-1977).

Já em 1999-2002UNTAET/PKF, etc também optaram por não usar aquele complexo. Razões invocadas: fora de mão, com espaço livre escasso para circulação de equipamento, viaturas, etc.

Nas décadas 50-70, a população de TL era de cerca de 400-600 mil habitantes; Díli tinha uma população de cerca de 30 mil pessoas. Hoje a população de TL deve rondar 1.500.000 (meus cálculos); a de Díli deve andar por volta de 250.000.

Alguns anos após a independência, ainda se pensou reconstruir o edifício e seus anexos e converter em Palácio Presidencial. Técnicos Chineses fizeram os estudos necessários e chegaram a conclusão que quer a estrutura, quer o terreno, não ofereciam garantias de estabilidade e recomendaram contra.

Aliás, em 2010, chuvas torrenciais provocaram o desabamento de terras e casas naquela zona, incluindo a antiga residência do médico-chefe, com vista fabulosa, que fazia parte do complexo do hospital; esta casa foi residência do atual Presidente Maun Bot Taur Matan Ruak até 2006. Toda a parte frontal desabou com as grandes chuvas de 2010

Durante a minha presidência, depois de muita “luta” com o Governo, o antigo hospital português foi entregue a um Dr. Chris Fenton, de Sydney, do projeto “Hospital Hope”. Mas este projeto nunca foi avante, NÃO por culpa do Governo de TL. Muitos senhores de fora vêm com grandes planos e depois verifica-se que afinal nao têm dinheiro próprio para financiar o projeto.

Reconstruir aquele complexo? Só por ser uma “relíquia” da época colonial? E reconstruir para que fim? O espaço é muito acanhado. Fora de mão. Terreno não estável, segundo os técnicos Chineses.

Mas creio que se poderia aproveitar, reabilitar para algo ligado a estudos, pesquisa, um Centro de Investigação Médica, ou uma pequena fábrica de medicamentos? Seria necessário muito dinheiro para reforçar as estruturas e a encosta da montanha.

Médicos cubanos usavam o edificio central como residência. Quando os visitei em 2010 fiquei revoltado com as condições extremamente precárias em que viviam; falei imediatamente ao Maun Bot Xanana e logo a seguir todos foram transferidos para dois hotéis em Díli.

Na época portuguesa havia esse único hospital em todo o Timor como se sabe. Havia o centro de saúde de Baucau com um médico militar português que dava assistência ao público em geral. Mas hospital propriamente dito só havia o de Díli. E não havia mais do que meia dúzia de médicos Portugueses em todo o TL, em missão de servico militar obrigatório de dois anos. Não havia um único médico Timorense. Havia um bom número de enfermeiros Timorenses muito bons. Honra lhes é devida.

Depois de 24 anos de ocupação indonésia, chegados a 2002, havia 16 médicos Timorenses.
Um deles o atual Ministro de Saúde, Dr. Sérgio Lobo. Outro, o Dr. Rui Araújo. E havia apenas o hospital de Díli, muito básico

O complexo atual HNGV beneficiou de muitas melhorias, infraestruturas e equipamento, higiene, expansão, etc desde 2002 financiadas por fundos da União Europeia, Austrália e do OGE de TL. Diariamente são observados e recebem tratamento no HNGV cerca de 800 pessoas:

– 150 no Banco de Urgência;

– 15 na maternidade;

– 500-600 na policlínica.

O HNGV dispõe de:

– 89 médicos de clínica geral, todos timorenses;

– 78 especialistas – 15 timorenses; 10 australianos; 48 Cubanos; uma nepalesa

Nos distritos estão destacados 710 médicos timorenses, dos quais 442 nos “sucos” (aldeias), apoiados pelos médicos cubanos; os restantes estão distribuidos pelos centros de saúde subdistritais e pelos quatro hospitais regionais de referência – Maubisse, Suai, Maliana, Oe-Cusse.

O quinto hospital de referência, o de Baucau, não avança: primeiro foi um charlatão “empresário” Sul-Coreano que desapareceu com uma boa fatia do dinheiro avançado pelo Governo para o projeto. Seguiram-se muitos anos de demora e finalmente a obra foi adjudicada a uma empresa Portuguesa. E tem avançado a passos de tartaruga.
Em resumo: na época Portuguesa não havia um único médico timorense; os 24 anos de ocupação indonésia resultaram em 16 médicos; desde 2003, o Timor-Leste independente com a cooperação exemplar cubana produziu mais de 700 médicos Timorenses com outros 400 mais a formarem-se. Em 2-3 anos mais, proporcionalmente Timor-Leste terá mais médicos que qualquer país da Ásia.

Devemos ser os primeiros a criticar quando as coisas estão mal. E há muita coisa que tem que ser corrigida, melhorada. Um problema grave que enfrentamos está na Administração Pública, na Administração e Gestão Hospitalar.

Mas nao esqueçamos que o País tem apenas 12 anos de independência – e onde nós estávamos em 1999-2002; ou onde estávamos em 1974.  Eu conheço clínicas em áreas remotas da Austrália frequentadas pelos nossos Irmãos Aborigenes em condições tão degradadas quanto as piores que temos em TL. Conheço centros de saúde aqui em Nova Iorque, em bairros delapidados de Bronx, Astoria (Queens), Los Angeles, Chicago, Appallachi Mountains, etc. onde as condições são algo bem piores que as de HNGV e os nossos hospitais regionais de referência.

Temos problemas sérios nos setores de saúde e educação. Aliás temos problemas sérios de mau planeamento e pior gestão praticamente em todas as áreas. Mas lembro o que Timor-Leste era na épocaPortuguesa (só havia o Maun Bot Mário Carrascalão formado como Agrônomo com grande distinção); não havia uma única Universidade, nem sequer um Instituto Técnico Médio; Quantos bolseiros timorenses cursavam na Mãe Pátria? Só nos anos em que o Sol começou a desaparecer do nosso “Império Ficção” (em 1973-74) que uns 20 Timorenses foram contemplados com bolsas para Portugal.

Hoje, com bolsas completas do Governo de TL temos centenas de Timorenses a fazerem BAs/BSs, MA/MS, PhDs, etc na Austrália, Tailândia, Filipinas, Malásia, Etc. Outras centenas estão a estudar no Brasil, Portugal, etc. Estes com bolsas destes dois Países Irmãos solidários, generosos. Sim o Portugal pós-25 Abril, assim como o Brasil pós-ditadura são outra coisa! Se o Irmão Salazar não estivesse 4 décadas no poleiro, se tivesse ficado lá na terreola dele de Santa Comba Dão, os Portugueses estariam muito melhor e nós pobres irmãos também estaríamos melhor.

Para terminar… em 1960, a esperanca média de vida de um timorense era de 40 anos; em 1970 ainda era de 40 anos; em 1999, era de 50 anos; em 2005, 57; em 2014 o timorense já vive até aos 67 anos!

FIM