José Ramos Horta declara ao DN que Timor tem tido um crescimento “invejável”, mas ainda há muito para fazer. E elogia apoio de Portugal

Celebra-se o 40.º aniversário da proclamação da independência, uma condição que pouco durou. O que significou o 28 de novembro de 1975 para Timor?

A Declaração Unilateral de Independência foi uma tentativa de criar um facto de direito internacional, isto é, um Estado independente e soberano, que desencorajaria a Indonésia de invadir e anexar Timor-Leste. O Comité Central da Fretilin não teria enveredado por essa via se dois factos tivessem ocorrido. Primeiro, se Portugal tivesse respondido aos nossos apelos insistentes para retomar a administração do território a seguir à derrota militar das forças da União Democrática Timorense. Como se sabe, a UDT desencadeou uma insurreição armada contra a Fretilin a 11 de agosto de 1975, a que a Fretilin reagiu nove dias depois, seguindo-se um período breve de guerra civil. Terminou em finais de agosto. A Fretilin, vitoriosa, desejou o regresso do governador Lemos Pires, na altura refugiado na ilha de Ataúro. O segundo facto, se a Indonésia não estivesse a intervir abertamente com forças militares que já tinham consolidado posições nas pequenas cidades fronteiriças, nomeadamente, Batugade, Bali, Maliana e Atabai.

Qual o balanço destes 40 anos?

A ocupação de Timor-Leste durou 24 anos. Façamos então um balanço em três partes muitos distintas da ocupação, de 1975 a 1999; de final de 1999 a 2002, que corresponde à administração pela ONU; e a terceira e atual, que começou em meados de 2002 com a restauração da independência às 00.00 de 20 de maio de 2002. O balanço dos últimos 13 anos é francamente positivo. Lembremos o que o país era em 2002 e o que é hoje, uma diferença da noite para o dia em todos os indicadores possíveis, económicos, sociais e humanos. Basta registar que pelos dados da ONU – Índice de Desenvolvimento Humano para 2014, Timor-Leste está muito melhor do que todos os países da África subsariana, à exceção de Cabo Verde e África do Sul. Está também melhor do que muitos da Ásia, nomeadamente Bangladesh, Índia, Laos, Myanmar, Nepal, Paquistão.

Lutou grande parte da sua vida pela independência de Timor. Como foi vivido o fim da soberania indonésia?

O fim da presença Indonésia em Timor-Leste foi igual ao início e igual aos 24 anos da ocupação, marcado pela violência generalizada e destruição. Foi trágico, devastador. Mas o povo timorense tem uma capacidade enorme de perdoar aos que muito mal lhe fizeram. O timorense comum não guarda rancor aos indonésios. Não há preconceitos, complexos, rancor. As feridas ainda lá estão, senão no corpo, estão bem vivas na alma. Mas o timorense consegue prevalecer sobre o passado e viver, viver no presente, para cuidar dos filhos e netos, para honrar os mortos. Com muita dignidade. Nós rejeitamos o ódio, a vingança. Recusamos ser reféns do passado, continuar a ser vítimas do passado. Por causa dessa nossa filosofia e política temos hoje excelentes relações com a Indonésia, a todos os níveis. E os indonésios responderam com verdadeiro sentido de Estado e acolheram Timor-Leste livre e soberano sem rancor e sem complexos, abraçaram a nova entidade independente sem hesitação. Portanto, os indonésios do pós-Suharto, do pós-ditadura, deram uma grande lição ao mundo, lição de saber perder com dignidade, sem rancor, sem mesquinhice.

A viabilidade do Estado timorense está garantida? Ou ainda há grande dependência da ONU?

Não temos qualquer dependência da ONU no plano securitário, político ou financeiro. O país tem tido um crescimento económico invejável. Graças ao Fundo do Petróleo, é um dos sete países onde se regista um crescimento acima dos 7%. Ao contrário de muitos outros, que não pouparam na época das vacas gordas, Timor poupou e agora está a tentar sobreviver com as poupanças, continuando a investir. Mas continua a ser um país frágil, porque é novo e ainda há muita coisa para fazer. A paz está consolidada, mas tem de continuar a ser cuidada.

Como avalia a cooperação que tem existido nos últimos anos entre Portugal e Timor?

Durante uma primeira fase de muitas carências humanitárias – entre 1999 a 2003 -, Portugal esteve na linha da frente, na celeridade com que desembolsava o que prometia. Ao contrário de outros países doadores, a ajuda portuguesa era mesmo desembolsada em Timor-Leste e não em infindáveis consultorias. A partir daí, Portugal investiu mais na educação, formação e saúde, assim como na melhoria da cultura do café e na justiça. Portugal continua a ser um parceiro importante, mas sempre com Timor como país recetor de ajuda. Gostaria de ver Timor-Leste privilegiar empresas públicas ou privadas portuguesas na conceção de projetos e estruturas.

Porque é que isso não acontece?

Há demasiados interesses de países da região, que têm empresas sem qualidade. Insisti ao longo de anos com o governo para estudar com Portugal o desenvolvimento do transporte marítimo, financiado por Timor Leste, mas com tecnologia e know-how português.

Portugal tem, portanto, sido eficaz na missão de cooperação?

Portugal tem sido um verdadeiro amigo do povo timorense, sem interesses obscuros a influenciarem as suas ajudas e decisões. Nunca um pedido deste país foi rejeitado. Uma das melhores áreas de cooperação é na defesa e segurança. A formação das nossas forças armadas, por exemplo, tem sido fundamentalmente feita por Portugal.

A decisão de expulsar os magistrados portugueses não veio abalar a relação entre os dois países?

Como timorense, não me orgulho desse episódio triste. Mas esse episódio, e a maneira como Portugal o geriu, só elevou o meu respeito pelos governantes portugueses.

O que mudou com a restauração da independência? As principais dificuldades foram superadas?

Se tivesse estado aqui no final de 99, na altura em que desembarquei em Díli, teria visto uma cidade quase completamente devastada. Não havia praticamente um único edifício de pé. Díli fez-me lembrar as imagens da Segunda Guerra Mundial. Treze anos depois, é uma cidade dinâmica, modernizada, com largas avenidas e edifícios novos. Houve um crescimento enorme, sobretudo nos últimos sete a oito anos.

O que é que falta fazer em Timor?

Temos de, com urgência, melhorar todo o setor de agricultura, florestas, pecuária e pescas, para garantir autonomia nessas áreas, que significa segurança alimentar. É preciso repovoar o país de árvores. A gestão dos serviços de saúde precisa de ser melhorada, porque existem boas infraestruturas, mas são muito mal geridas. Também temos de repensar e melhorar a educação. É necessário diversificar a economia e não vejo muitas áreas nas quais apostar além da segurança alimentar e do turismo.

A agricultura tem sido considerada a aposta para combater a fome e a desnutrição na CPLP…

Não me parece que Timor-Leste tenha sido bem-sucedido nos últimos dez anos nesta área. Tanto dinheiro investido na aquisição de tratores e outras alfaias agrícolas, que se distribuíram generosamente, sem que alguém se tenha preocupado com uma planificação que integrasse irrigação, formação de agricultores, a sua organização e coisas básicas como manutenção de equipamento. Subsidiamos importação de arroz do Vietname e da Tailândia. Assim, estamos a matar os nossos agricultores.

Existem muitas pessoas a passar fome em Timor?

Não, fome não há. O que há é subnutrição e má nutrição. A primeira é quando as pessoas não comem as proteínas e vitaminas suficientes. A segunda é quando há produtos disponíveis, mas as pessoas não sabem organizar uma dieta equilibrada com os produtos que têm.

É preciso educar as pessoas nesse sentido?

Sim. A subnutrição diminuiu em mais de 50%. A mortalidade à nascença e infantil também baixaram mais de 50%. E a malária caiu mais de 70%. Mas ainda temos problemas respiratórios graves, relacionados com o fumo do tabaco. Na percentagem de fumadores somos os maiores do mundo. E temos problemas graves de tuberculose, devido ao ambiente em que as pessoas vivem, à subnutrição.

Em Díli

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“Los timorenses tienen una enorme capacidad para perdonar a los que tanto mal les hicieron” –Ramos-Horta

José Ramos-Horta dijo a Diario de Noticias en Dili,  que Timor ha registrado un crecimiento “envidiable”, pero aún queda mucho por hacer. Y alaba el apoyo de Portugal.

 

Se conmemora el 40 aniversario de la proclamación de la independencia, una condición que no duró mucho tiempo. ¿Qué significó el 28 de noviembre  de 1975 para Timor?

La Declaración Unilateral de Independencia fue un intento de crear un hecho de internacional, es decir, un Estado independiente y soberano, que desalentaría a Indonesia para invadir y anexar Timor Oriental. El Comité Central del Frente Revolucionario de Timor Oriental Independiente (Fretilin, por su sigla en portugués, Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente)  no habría ido por este camino si hubieran ocurrido dos hechos.

En primer lugar, si Portugal hubiese respondido a nuestros repetidos llamamientos para reanudar la administración del territorio después de la derrota militar de las fuerzas de la Unión Democrática de Timor(UDT). Como se sabe, la UDT desencadenó una insurrección armada contra el Fretilin , el 11 de agosto 1975. El Fretilin respondió nueve días más tarde, registrándose un breve período de guerra civil, que terminó a finales de agosto de ese año.

El Fretilin victorioso, deseaba el regreso del gobernador, general Mario Lemos Pires refugiado en ese entonces  en la isla de Atauro. El segundo hecho, si Indonesia no hubiese intervenido abiertamente con  fuerzas militares,  que ya tenían en posiciones consolidadas en las pequeñas ciudades de la frontera, en particular Batugade, Bali, Maliana y Atabai.

¿Cuál es el balance de estos 40 años?

La ocupación de Timor Oriental duró 24 años. Entonces hagamos una evaluación en tres partes muy diferentes de la ocupación: 1975-1999; final de 1999 a 2002, que corresponde a la administración de las NacionesUnidas; y la tercera y actual, que comenzó a mediados de 2002 con la restauración de la independencia a la medianoche el 20 de mayo de 2002. El saldo de los últimos 13 años es muy positivo.

Recuérdese lo que era el país en 2002 y lo que es hoy en día, una diferencia de la noche para del día en todos los indicadores posibles, económicos, sociales y humanos. Basta observar las cifras de la ONU: En el Índice de Desarrollo Humano de 2014, Timor-Oriental  está mucho mejor colocado que todos los países del África subsahariana, a excepción de Cabo Verde y Sudáfrica.  También está en situación mejor que muchos países  de Asia, incluyendo Bangladesh, la India, Laos, Myanmar, Nepal, Pakistán

La mayor parte de su vida luchó por la independencia de Timor. ¿Cómo se vivió el fin del dominio de Indonesia?


El fin de la presencia de Indonesia en Timor Oriental fue lo mismo, de principio a fin,  e  igual a los 24 años de ocupación, marcado por la violencia y la destrucción generalizada. Fue trágico y devastador. Pero el pueblo timorense tiene una enorme capacidad para perdonar a los que le tanto daño le han causado. El timorense común no guarda rencor los indonesios. No hay prejuicios, complejos, rencores. Las heridas todavía están allí, si bien no en el cuerpo, están bien vivas en el alma. Pero el timorense puede sobreponerse  al pasado y vivir, vivir el presente, para cuidar a sus hijos y nietos, honrar a los muertos. Con gran dignidad. Rechazamos el odio, la venganza. Nos negamos a ser rehenes del pasado, a seguir siendo víctimas del pasado.

Debido a nuestra filosofía y política, es que hoy en día tenemos  excelentes relaciones con Indonesia a todos los niveles. Y los indonesios respondieron con auténtico sentido de Estado al acoger con beneplácito la condición libre y soberana  de Timor Oriental. Sin rencores ni complejos, abrazaron la nueva entidad independiente sin vacilaciones. Por lo tanto, el post-Suharto en Indonesia, la post-dictadura dio una gran lección al mundo al saber perder con dignidad, sin rencores, sin mezquindad.

¿La viabilidad de Timor Estado está garantizada o todavía hay una gran dependencia de la ONU?

No tenemos ninguna dependencia de la ONU en el plano político,  financiero o de la seguridad. El país ha tenido un crecimiento económico envidiable. Gracias al Fondo de Petróleo, es uno de los siete países donde hay un crecimiento de más del 7%. A diferencia de muchos otros, que no han ahorrado en tiempos de vacas gordas, Timor economizó y ahora está tratando de sobrevivir con ese  ahorro y seguir invirtiendo. Sin embargo, sigue siendo un país frágil, porque es nuevo y todavía hay mucho que hacer. La paz está consolidada pero tiene seguir siendo resguardada.

¿Cómo evalúa la cooperación que ha existido en los últimos años entre Portugal y Timor?

Durante la primera fase, con numerosas necesidades humanitarias – 1999 hasta 2003 -, Portugal estuvo a la vanguardia en la velocidad con que daba lo que prometía. A diferencia de otros países donantes, la ayudaportuguesa se desembolsó en el propio en Timor Oriental y no en consultorías interminables.

Desde entonces, Portugal ha invertido más en educación, capacitación y  salud, así como en la justicia y la mejoría del cultivo del café. No obstante,  Portugal continúa siendo un colaborador importante, pero siempre conTimor tan solo como país receptor de ayuda. Me gustaría ver participar a empresas públicas o privadas portuguesas en el diseño de proyectos y estructuras en Timor Oriental.

¿Por qué eso no ocurre?

Hay demasiados intereses de los países de la región, que no tienen empresas de calidad. Insistí en los últimos años con el gobierno para que se estudie con Portugal el desarrollo del transporte marítimo, financiado porTimor Oriental, pero con la tecnología  y know-how portugués.

¿Por lo tanto, Portugal ha sido eficaz en la misión de cooperación?

Portugal ha sido un verdadero amigo del pueblo de Timor, sin oscuros intereses creados para influir en su ayuda y decisiones. Nunca una petición de mi país ha sido rechazada. Una de las mejores zonas de la cooperaciónes en defensa y seguridad. La formación de nuestras fuerzas armadas, por ejemplo, ha sido llevada a cabo fundamentalmente por Portugal.

La decisión de expulsar a los jueces portugueses, ¿no agitó la relación entre los dos países?

Como timorense, no me enorgullece nada este triste episodio. Pero este episodio, y la forma en que el Portugal lo manejó, sólo he hecho que aumente mi respeto por los gobernantes portugueses.

¿Qué ha cambiado con la restauración de la independencia?  ¿Las mayores dificultades se han superado?

Si usted hubiese estado aquí a finales de 1999, cuando aterricé en Dili, habría visto una ciudad casi completamente devastada. No había prácticamente un solo edificio en pie. Dili me recordó las imágenes de la SegundaGuerra Mundial. Trece años más tarde, es una ciudad dinámica, modernizada, con amplias avenidas y edificios nuevos. Hubo un gran crecimiento, especialmente en los últimos siete a ocho años.

¿Qué queda por hacer en Timor?

Tenemos que mejorar urgentemente el conjunto del Sector Agrícola, la silvicultura, la ganadería y la pesca, para garantizar la autonomía de aquellas áreas, lo que se traduce en seguridad alimentaria. Hay que repoblar deárboles el país.  Necesitamos que mejore  la administración de servicios de salud, porque hay una buena infraestructura, pero están muy mal manejados. También tenemos que repensar y mejorar la educación. Es necesariodiversificar la economía y apostar en muchas áreas además de la seguridad alimentaria y el turismo.

La agricultura ha sido considerada la apuesta para combatir el hambre y la desnutrición en la Comunidad de Países de Lengua Portuguesa (CPLP)…

Yo no creo que Timor Oriental haya tenido éxito en los últimos diez años en esta área. Tanto dinero invertido en la compra de tractores y otros equipos agrícolas, que se distribuyen generosamente, sin que alguien se haya preocupado por una planificación que incluya el riego, la capacitación de los agricultores, su organización y cosas básicas como el mantenimiento del equipo. Subvencionamos importaciones de arroz de Vietnam y Tailandia.Así estamos matando a nuestros agricultores.

¿Existen muchas personas que pasan hambre en Timor?

No,  hambre no hay. Lo que hay es desnutrición y malnutrición. La primera es cuando la gente no come suficientes proteínas y vitaminas. La segunda es cuando hay productos disponibles, pero la gente no sabe cómo organizar una dieta equilibrada con los productos que tiene.

¿Es necesario educar a la gente en este sentido?

Sí. La desnutrición se redujo en más del 50%. La mortalidad al nacer y la infantil también disminuyeron más de 50%. El paludismo bajó más de 70%. Pero todavía tenemos graves problemas respiratorios relacionados con el humo del tabaco. El porcentaje de fumadores en Timor es el más alto del mundo. Y tenemos problemas graves de tuberculosis, debido al entorno en el que vive la gente, la desnutrición.